O “COveiro” review on 33-45.org (pt only)

“Trata-se de um refinado exemplo de «hauntology» à portuguesa, um exercício que não destoaria num catálogo como o da Ghost Box, embora a perspectiva seja distinta: não há por aqui ecos de uma adormecida memória catódica britânica nem sequer marcas de um qualquer legado folk dos assombrados «shires» verdes. Se tanto, adivinha-se nas sombrias paisagens imaginadas por Ghuna X algo de mais cinzento e intrinsecamente português, uma solenidade granítica que remete muito mais para a nossa paisagem. E escreve isto quem não viu o filme de André Gil Mata. Mas um título como O Coveiro já faz disparar a imaginação.

Há, pois claro, referências ao universo sonoro dos filmes de terror, mas a névoa analógica com que Ghuna X envolve tudo já denota uma maturidade clara, uma vontade de construir uma linguagem própria. E depois há o domínio das ferramentas sonoras, com um som límpido e bem organizado no espaço, o que reforça a carga dramática das diversas peças. A ligação às obras passadas de Ghuna X sente-se sobretudo no peso dos sub-graves que por vezes despontam, como vultos que espreitam por entre as árvores.

É exactamente assim que gosto dos meus sons assustadores: sombrios, sinistros, sofisticados, banhados em electrónica, mas com o recurso pontual a instrumentos acústicos (o violoncelo e o piano além de algumas percussões acústicas mantêm os arranjos entre esses dois mundos). Agora mal posso esperar para meter as mãos no «produto final».

O que se segue Ghuna?

O Coveiro ouve-se aqui.”

by Rui Miguel Abreu

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