Ghuna X @ GNRATion, Braga

After my last performance at the new GNRation, I got this text on my inbox.

Portuguese only.

GHUNA X – 1 de Maio em Braga START UP GNRation

Entrei para ouvir sem saber o quê, que me não disseram, mas pelo aparato cénico logo vi que ia ouvir uma experiência musical, dado o carácter improvisado das torres de papelão electrificadas e da parafernália de objectos tecnológicos que se viam na cabeceira da sala ou do cubículo: colunas, mesas de mistura, computador, teclados, mais umas peças de que não sei os nomes, mas acabei por perceber que eram instrumentos de manipulação sonora. Imagine agora o leitor que saiu daquelas máquinas um som e que eu lhe segui o rasto como se ele fosse ocupando espaço. Era música contemporânea, electrónica, concreta, será melhor dizer assim, gerada em computador, pré-gravada, mas gerida na mesa com controle de intensidade, controle de timbres, controle de reverberação, controle de volume; as células rítmicas e melódicas programadas requereram de imediato uma aproximação ao mundo dos objectos sonoros provenientes de máquinas, de ruídos naturais, de ventos, de motores, de artificialismos sonoros. A gente, quando ouve, quer sempre um fenómeno de mimesis com o que nos rodeia e este ocorreu naturalmente, mas por breves momentos, que o aleatório da criação encarregou-se de castigar o cérebro e de o fazer divagar por fenómenos mais abstractos, provavelmente climas ou atmosferas de sentimentos, tipo raiva, fúria, eminência de ataque, susto, medo, arrepio, expectativa de curiosidade, desastre, suspense fílmico, etc., etc., como se fosse ficção científica. O compositor mistura, controla ao vivo, no imediato, a pré-programação. A criação ao vivo do contínuo sonoro foi integrando sons límpidos e saturados, efeitos de distorsão, cortes, acumulação de ruídos e de batidas, exterioridades e interioridades sonoras, ocupando espaço e interferindo com o corpo, provocando a reacção imediata dos sentidos, mexendo com o estômago, fazendo repercussão no rosto, na pele, por dentro e por fora, tendo, por isso, um efeito corporal substantivo. O trabalho de manipulação do volume e da intensidade foi definidor da atmosfera pretendida ou sugerida, houve o ruído ou caos sonoro do real e houve sons que fugiram ao real, de criação digital, abstracta, com limites que provavelmente estarão baixo ou acima das frequências audíveis, não existentes a ouvido nu, portanto não acumuladas no repertório de sons que a memória vai fazendo, em suma, futuríveis. Houve também a presença de pequenas sequências melódicas, harmonicamente obtidas, por uso do teclado em simultâneo com a gravação. Este modelo de composição lembrou-me a experiência de contacto com o sistema computacional de criação sonora que tive na Casa da Música. A sequência das batidas atribuiu alguma regularidade e de familiaridade, impulsionando a presença do contemporâneo, urbano local e tribal, mas depressa os sons saturados, corrompidos, usinais, de fábrica ou de máquina, os «barulhos», entraram e ganharam espessura. Ouvi acordes pontuais contrastivos que seccionaram aquele estado de confusão, com crescendos e decrescendos regulares até novas erupções. Ah, as sirenes de ambulâncias tinham fatalmente de entrar, acompanhadas de um piano grave, até serem substituídas por um zumbido de motores de exaustores. Oh, o sino também, breve, pontuou aquela corrente sonora grave e aguda, serena e agitada, funda e alta, longa e curta. De novo aquelas frequências que fizeram contorcer o corpo e enrugar a pele, aquela densidade de baixos que agrediu o corpo e que requereu o sossego imediato, retemperador, homeostático. E foi assim. Dei graças por um dia ter lido Pierre Schaeffer, por ter ouvido algumas peças de Xenakis quando teria a idade do compositor, por ter convivido com Cândido Lima e Amílcar Vasques naqueles anos que frequentei de conservatório. Também me senti ajudado por alguns concertos ouvidos no MEZZO. Valeu. Gostei. Este texto foi escrito nas folhas do catálogo em simultâneo com a audição.

Braga, 1 de Maio de 2013. José Machado.

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